Terça-feira, 28 de Abril de 2009

 

 

 

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

 
Carlos Drummond de Andrade

 

 

Fotografia de © Reggie und Ich

 

 

 

Estive em tanto povoado
Procurei por tanta gente
A quem me dei
Mais do que devia,
Eu sei,
Mas a ti?

A ti eu sempre falava de mim!

 
Pensa-me
A repetir todos os povoados
A procurar por toda a gente
Mais do que devia,
Eu sei,

Mas continua a ter a certeza:

Foi a ti que me mostrei.
Ainda que teimasses que não,
Foi a ti que me revelei.
 
Penso-me

Num sítio que ambos saibamos,

Mas que não procuraremos,

Olhando as certezas que trocámos:

Foi só nosso aquele passo de dança,

Foi só nosso o beijo,
Foi só nosso o afago.
 
Estamos já tão longe de tudo
Mas lá,

Habitará para sempre o lugarejo

Onde o sol permanece,
Prenunciando dias bonitos.
E quando acontecer nele a noite,
Ouvi-la-ão cantar
Com a voz das chuvas de verão,

De como os pirilampos brilhavam em sorrisos

Por não nos darmos conta de mais nada

Senão de nos acontecermos,
Quando
No dorso daquele sonho,
Serenamente adormecíamos.  
 
 



publicado por Cris às 00:32 | link do post | comentar | favorito

11 comentários:
De Claras Manhãs a 1 de Maio de 2009 às 19:18
A fotografia é excepcional e tão bem escolhida, Cris.
Tão importante haver recantos maravilhosos em memórias.
tão importante seres assim maravilhosa

beijinho meu doce


De Cris a 1 de Maio de 2009 às 19:40
Tem uma luz e uma cor, esta imagem!
Há "lugarejos" lindíssimos. Importa cuidá-los.
Beijos mil


De tmarat a 1 de Maio de 2009 às 19:00
os lugares são todos de ontem , hoje, de ontem e de um amanhã ja em construção. nele brincam ou brilham memórias ou lagrimas, tambem sorrisos e todos os luarejos podem ser luminsosos. Assim luminosos.
Bjs
Luz e paz Cris


De Cris a 1 de Maio de 2009 às 19:43
Gostei tanto do teu "lugarejo", Tmara.
Um beijo e um abraço apertado, Amiga.


De Fatyly a 30 de Abril de 2009 às 18:44
Estamos já tão longe de tudo
Mas lá,

Habitará para sempre o lugarejo
Onde o sol permanece,
...................
foi bom reler e esta foto está uma maravilha.
Um poema terno, meigo e apesar de "já tão longe de tudo"o que seria do ser humano sem "lugarejos" para recordar? mas nada volta atrás e se voltarmos...será tudo diferente e decepcionante.

Gostei muito e foi bom vir aqui.

Uma beijoca igual à de sempre:)


De Cris a 30 de Abril de 2009 às 19:46
A foto é tão bonita, não é?
Há lugarejos tão bonitos e há tantos para visitar, para habitar, Mãezona!
Gosto tanto de te saber aqui (não no blog) mas aqui, cá dentro, Linda!
Beijitos e este fim de semana é nosso, das Mãezonas e a tua/nossa Barriguitas vai estar toda orgulhosa, claro que sim!
Beijo doce para ti e essa prole mais do que bonita que tão bem cuidas.



De Xande a 29 de Abril de 2009 às 02:38
Torrão fiquei sem palavras pela escolha do Drummond de Andrade e pela junção com este poema, que tanto significa. É deliciosos relê-lo e senti-lo.
Beijo com todo o Carinho


De Cris a 30 de Abril de 2009 às 19:40
Carlos Drummond de Andrade é um poeta sublime.
Não foi uma escolha ao acaso...
Bom que tenhas gostado.Sabe sempre bem reler quando se gosta.
Bom fim de semana e um beijo pleno de tudo de bom para ti.






De Xande a 4 de Maio de 2009 às 01:11
Torrão eu sei que a escolha não foi ao acaso, porque sei o lado "especial" que tem esse poema do Drummond de Andrade, sabes o quanto me delicio a TE ler e reler, sabes o quanto repito que cada vez escreves melhor. Por vezes podemos estar "tão longe de tudo" mas não ficarmos longe tudo! Como em tudo na vida temos diariamente "um passado, um presente e um futuro" e nunca podemos voltar ao passado, sabemos o que é o presente, mas não o que será o futuro, poderá ser por vezes melhor, por vezes bom,, por vezes menos bom ou por vezes mau, mas nunca é só uma delas! Que tenhas tido um fim de semana com paz e serenidade é o que meu maior desejo! Beijos muitos carregados de carinho e ternura


De Daniel Aladiah a 28 de Abril de 2009 às 20:27
Querida Cris
A ausência encantada não é o encanto da ausência...
Viver no passado só por momentos... aqueles que nos dão a veia poética, que se esvai na dor das palavras... depois, é ver o que temos pela frente.
Um beijo
Daniel


De Cris a 30 de Abril de 2009 às 19:26
E à nossa frente, tanto céu para descobrir... mas, importa olharmos o passado (ainda que não permaneçamos nele, isso não!) para retirarmos dele o bom... Tudo o mais, não interessa, é passado, acabou e sequer o vamos buscar!
Importante caminhar, mas, agora, duma forma mais "segura", de "olhos bem abertos", ouvido atento e a boca, a abrir-se, que se abra no momento devido, Querido Daniel.
Beijo e que este fim de semana seja bom para ti, para os teus.


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