Sábado, 23 de Maio de 2009

 

 

 

 

Tão belo, cheio de cor. Tão belo, cheio de música, pleno de finais da tarde, pleno de noites para se bailar na eira, ao som dum acordeão, duns ferrinhos, duma viola braguesa, dum cavaquinho.

Demoramo-nos por aqui, onde o tempo nos dá o braço, nos puxa, nos rodeia a cintura e nos encanta, ausente de pressa.

 

 Fotografia de © Fernanda

 

 

Queria ser vilarejo,

Aldeia de casas caiadas,

Sardinheiras nas janelas,

Cheiro a flor de campo pelo chão!

Ser a fonte,

Beber de água,

Ser ribeirinha a correr,

Regadio de muitos prados.

 

Queria ser o “bom dia!”,

Saudação bonacheirona,

Queria ser banco da venda,

Ser conversa,

Ser velhinho,

A sua boina,

Ser o grupo que ali se encontra,

Um jogo de dominó,

Uma boa gargalhada,

Ser uma história de avó,

Alvos fios de cabelo,

Ser semblante enrugado,

Ser olhos, ouvidos de neto…

 

Ser o sabor do estio,

O sol deitado p’los muros,

O chiado de duas rodas,

O cantar de carros de bois,

Ser o portão de uma quinta

Aberto de par em par,

Ser muitas arvores de fruto!

 

Ser o recreio de escola,

Ser meninos a correr,

Ser uma cantiga de roda,

Meninas de cabelo aos cachos,

Ser a alegria de uma boneca de trapos

Ser fisga de rapazinho,

Ser um pássaro, ser um ninho.

Ser tanque de água gelada,

Ser roupa branca a secar.

 

Queria ser feira,

Ser toalha,

Cântaro de barro,

Jarrinha,

Roupa interior colorida,

Gaiola de passarinho,

Ser morena,

Ser trigueira,

Ser tamancos, ser sapatos,

Chinelo de meter o dedo,

Ser tecidos,

Ser cadeiras, escaninhos,

Armários, mesas, panelas,

Discussão de lavradeiras,

Cestos de vime entrançado,

Ser a foice,

Ser ancinho,

O cabo de uma enxada,

Alguidares, jarros e loiça,

Vasos a abarrotar de flores,

Bebé no meio de mantas.

 

Ser domingo,

Saída da missa,

Ser chão do adro da igreja,

Um bonito fato engomado,

Ou vestido vindo da França…

O casamento a preceito,

Boda à sombra da latada,

Ser riso da jovem casada,

Ser dela o noivo bonito,

O galanteio guloso,

Uma flor na lapela.

Ser desejo, ser anseio,

Da vontade que não acaba

Ser só dele, dali a nada…

 
 

Queria ser um Arraial,

Foguetes de muitas cores,

Mesas com bancos corridos,

Tendinha de pano-cru.

Ser cheiro a sardinha assada,

Pão ensopado em azeite,

Vinho a pintar a tigela,

Boroa de forno de lenha,

Fêvera a grelhar no carvão…

 

Queria ser festa animada,

Um coreto engalanado,

Um rancho de folclore,

Uma chula, um vira do Minho,

Ser a dança ou rodopio,

Ser andar de braço dado,

Ser voz da rapariga animada

O olhar de moço cobiçado

Um beijo dado à socapa,

Ser lenço de namorados.

 

Ser ainda a última cantiga,

Ser as “santas noites!” a todos,

A porta da casa encostada,

Ser do sono a recompensa…

Ser o silêncio satisfeito

Ou céu pejado de estrelas.

 

Eu queria ser madrugada,

O galo a cantar no poleiro,

O chilreio da andorinha,

Ser povoação, ser um largo,

Ser aquele vilarejo,

Ser todas as casas branqueadas,

Um gato a dormir no colo,

A cortina da janela,

Ser caminho,

Ser um passeio.

Eu queria ser um ano,

Ser um mês,

Ser só um dia,

Ser uma hora ou um minuto,

Ou ainda que por menos tempo,

Ser vida a andar com vagar,

Bordada a mil e uma cor,

Na barra de um avental!

 

 



publicado por Cris às 17:49 | link do post | comentar | favorito

14 comentários:
De Fernanda Paredes a 4 de Junho de 2009 às 00:27
Não conseguia comentar!...Ufa, até que enfim!!!:)
Adorei este post, a prosa, o verso e a minha foto que nem parece minha...valorizou tanto!! Parabens, continue a escrever com a alma nas palavras!... Um abraço


De Cris a 4 de Junho de 2009 às 01:25
Quando vi aquela fotografia, apaixonei-me e fui logo buscar o poema. O poema é que se musicou com a imagem, Fernada. Agora sim, consegue-se ouvir um vira, sentir o cheiro da sardinha assada, olhar aquele verde a abarrotar de tanta tonalidade!
É lindo o Minho, o nosso Minho!

Pronto. Já sabe o caminho, é sempre bem vinda, sempre e prepare-se porque lhe vou buscar mais umas tantas imagens!
Belos os seus olhares! Delicio-me com qualquer um deles.




De Sonhos Perdidos a 31 de Maio de 2009 às 09:50
Cool


De Carla a 31 de Maio de 2009 às 08:31
engalanou-se o MInho para a festa adornado por estes versos encantados
parabéns
beijo


De Daniel Aladiah a 29 de Maio de 2009 às 23:27
Querida Cris
Ai verde Minho... :)
Um beijo
Daniel


De Cris a 29 de Maio de 2009 às 23:36
Sou minhota, sim :) Como me emociono com um belo vira do Minho, Querido Daniel! E cantar à desgarrada? Tão bom que é!

Meu beijo para ti e os teus, Amigo


De Chris a 28 de Maio de 2009 às 00:17
Mais um belíssimo trabalhos.
Que bem jogas com as palavras.
Senti-te afastada por um tempo, ainda bem que voltaste!
Beijos


De Cris a 29 de Maio de 2009 às 19:18
Olá, Xará.
Tenho andado menos bem (não de saúde, mas de disposição) e preciso (no meu caso) de me sentir calma para poder escrever. Este poema é uma reposição.
Quando o escrevi dediquei-o ao meu Pai, que era um Minhoto convicto, emocionado.

Não tarda, volto, prometo.
Obrigada, Linda pelas tuas palavras sempre tão boas, tão bonitas, cheias de amizade.

Com carinho,
Cris


De paranoias a 28 de Maio de 2009 às 00:06
Oi priminha...
cada vez melhor esta tua escrita...vontade de sonhar, fechar os olhos e relembrar...
Bjinhos


De Cris a 29 de Maio de 2009 às 19:22
Olá, Prima.
Sabias que guardo (lá em casa da Avó Edu) alguns dos teus poemas?
Um beijinho e a gente vai-se sempre falando.
Adorei ver as fotos da família :) Eia, que os nossos filhotes são mesmo bonitos, an? ;)

Obrigada e logo que possa (que a João anda atarefadíssima) envio as últimas fotos que ela tem, ok? As da imposição!
Babei (imaginas, né?) vê-la trajada.

Bom fim de semana para ti e todos.


De Paulo Mello a 25 de Maio de 2009 às 02:22
Tu podes ser tudo, Cris, com este teu versejar de primeira, com esta forma tão bonita de prestar homenagens a pessoas e lugares, tudo podes conquistar. São belos os trajes da fotografia e parece que dá até para ouvir a música que embala os dançarinos. Pelo teu olhar adivinha-se uma região muito rica e muito bonita, além de muito poética. Um belo post, amiga, sem dúvida.

Estou chegando de uma visita à tua Calunguinha, Cris, preocupado que estava com o fato de não ver meus telefonemas atendidos. Ela praticamente se isolou na casa de campo onde, durante a semana, fica somente com os empregados da casa. Lê o tempo todo, toca piano, escreve, passeia pela região, e nos fins de semana convive com os parentes que vão ficar com ela. Disse-me ela que está muito bem, que precisa deste descanso, deste contato com a natureza, e quando perguntei até quando pretende isolar-se, ela simplesmente me respondeu: só Deus sabe! Mudou de assunto, pediu desculpas por não atender os telefonemas, tendo se reservado o direito de conversar apenas com a mãe e a filhota durante este tempo de reclusão. Na hora da despedida, gradeceu minha visita, mas pediu-me para não ficar aborrecido por não atender meus telefonemas, pediu que eu entendesse a situação e que procurasse viver a minha vida, tocar meus projetos, e que ela estaria sempre torcendo por mim, pela minha felicidade.

Enfim, minha boa amiga, a Beeatriz praticamente me expulsou da sua vida, com delicadeza, com educação, mas com muita firmeza. E eu, apesar da tristeza, vou tentar seguir cumprindo as promessas que tive de fazer. É isto aí, Cris, o que foi minha vida nestes últimos dias depois que ela encerrou o Caminhos de Mim. Hoje, quando entro lá, só ouço uma música triste que eu bem sei não é dirigida a mim, mas a alguém que ocupou o coração dela de tal forma que nada nem ninguém consegue arrancar de lá. Não soubesse eu dos seus problemas de saúde, sérios demais pelo que a senhora sua mãe deixou entrever, pensaria que o mal da tua Calunguinha é um mal de amor. Enfim, com sofrimento ou não, vou tocar a vida pra frente.

Sempre que uma nova postagem surgir, estarei por aqui, Cris, para ler-te.

Que tua semana seja cheia de coisas boas junto aos teus.

Meu abraço fraterno, meus cumprimentos, e um pouco de minha tristeza,
PMello


De Cris a 29 de Maio de 2009 às 19:25
Queria poder dizer que a semana foi plena de tudo de bom, Paulo... Vou pensar que a que se avizinha seja bem melhor.
Tempos um pouquinho complicados, estes, que me afastam de escrever, de responder, de comentar.
Fui ao blog da Calunguinha :( Já nada existe, Paulo :( Não faz sentido manter o link ali --->
Vou retirá-lo.
Se falares com ela, dá-lhe um grande beijo meu e que tudo lhe corra bem.
Para ti o meu abraço pleno de amizade, sempre!
Beijito ao teu filhote.



De Nuno de Sousa a 24 de Maio de 2009 às 23:49
Bem amiga... que dizer de mais um belíssimo trabalho, que bela a tua escrita dedicada à bela região do Minho que tanto adoro, minha sogra é Minhota e como eu gosto dessa região e tão belas fotos ali se fazem... olha já fiquei com saudades és a culpada :-)
Bjs em ti amiga e uma boa semana,
Nuno


De Cris a 29 de Maio de 2009 às 19:29
Obrigada, Nuno, por tudo.
Já votei nas vossas fotos, a tua e a da tua Paixão. Depois diz-me do resultado, pode ser?
Quanto a esta região, ao Minho, fico à espera da vossa visita. Locais lindos para fotografar não faltam.
Arranjem um fim de semana e venham até cá e o resto vai ser óptimo, garanto-vos!

Beijitos para ti e para a Lena e bom fim de semana cheio de olhares multicoloridos.


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