Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

 

 

apesar da chuva, será sempre aquela, a minha frase favorita. apesar de tudo, não se gastou o sentimento. não há fins. creio nos interregnos. mereço deambular nessa terra de ninguém, pois que: "pela noite adiante, com a morte na algibeira, cada homem procura um rio para dormir."ou, como tu também disseste:"Cada sonho morre às mãos doutro sonho".

mostrei-te as mãos. entendi-te. acredita que senti, de novo, que voltava esta estúpida vontade de chorar, de fechar o livro, de cegar, de me aborrecer contigo, de guardar aquela frase favorita, mas, parei, quando me apercebi como as olhavas, dizendo delas, aquilo de que não fui capaz, e não ceguei, não me zanguei apenas as calei  nas tuas para te escutar como merecias ser escutado:

"Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.

 
Dizer-te-ia este:
39.
 
Nesse Lugares,
nesses lugares onde o ar
perde a mão,
os meus amigos começam a morrer.
 
Falar tornou-se insuportável.
Falar dessa luz queimada.
Deserta.
 
Que fazer desta boca,
do olhar,
tão perto outrora de ser música?
 
De seguida, este outro:
 
ONDE OS LÁBIOS
 
Os lábios.
Distante, arrefecida chama.
nâo só os lábios, também as estrelas
são distantes.
E os bosques. E as nascentes.
Também as nascentes são distantes.
As nascentes onde os lábios,
onde as estrelas bebem.
Só o deserto é próximo, só
o deserto.
 
Saudosa, ouvir-me-ias:
 
EM FLORENÇA, COM A FIAMA
 
Era em Florença, num verão sem usura.
A cidade, que nós víamos de San Miniato,
desfazia-se em luz.
Nos labirintos do Jardim Boboli,
tu e um melro rente à relva
cantavam um para o outro.
Não sei qual das vozes era mais pura,
se a do fio de água que subia
no canto do melro, ou, mais frágil
e rente ao chão, a tua.
 

não vás já. espera só o tempo dum pedaço do poema que me lerias, omitindo o título que ambos sabíamos, mas que não ouso proferir:

[...]
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro
          nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
          outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
          verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
 
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
era no tempo...
 

não aguento este diálogo. falas tanto, tanto, mas a palavra existia, ainda que dissesses que não. era um peixe, duma outra cor, bem sei, mas era um peixe. dizias que não, mas continuavas, como eu, a acreditar nos teus olhos, tal como eu acreditava nos meus. ainda acredito. estão vivos, vêem, ainda que depois da bonança venha a tempestade.

pedimos muito, Eugénio, e, "não se pode estar sempre a pedir, senão, as palavras desgastam-se e há as que não podem nem devem ser desgastadas, pelo valor que têm.

não é por se dizer que se Ama o Outro que se prova o sentimento. antes de tudo é preciso sentir e eu, Eugénio, só queria ouvir... (atrevo-me a invadir o que sentes enquanto te calas e me escutas) será que também te chegou aquela estúpida vontade de chorar? será?

antes de tudo é preciso sentir e naquele momento só queria ouvir. foi assim, contigo?

vou largar as tuas mãos agora que já te disse tudo.
fico mais um pouco.

vai, que "passaste os dias a pôr sílabas sobre sílabas. Dorme, estás cansado." acredita! "Espanta-me que estes (meus) olhos durem ainda, que as suas pedras molhadas se tenham demorado tanto a reflectir um céu extenuado em vez de aprenderem com a chuva a morder o chão."

vai, Amigo, que, ainda assim, aquela frase, proferida por Alguém, não menos importante que tu, não menos importante que eu, depois de tanto termos conversado, ainda é, de todas as que proferimos, minhas, tuas, e, era isto que te queria dizer, (não tivesses tu ido, antes do fim, ou será o início?...), a minha preferida.

estou a pensar no que disseste:

 

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

 

só queria um regaço para que me deitasse, e, ao som da melodia das tuas pisadas sobre o areal, adormecesse. talvez que o sonho voltasse, sabes? talvez que ocupasse o lugar desta tempestade que não passa, não passa, não passa.

quando voltará a ter toda a importância o gesto, Eugénio? quando?

 

 

Nota:

 

Todos os poemas, todas as frases em negrito e itálico foram retiradas de alguns dos livros de Eugénio de Andrade.

Obrigada, Eugénio.

 

 

 

 



publicado por Cris às 00:28 | link do post | comentar | favorito

11 comentários:
De Filipa a 3 de Dezembro de 2008 às 11:42
Obrigada :) é delicioso este post. Beijinhos


De Cristina Mestre a 28 de Outubro de 2008 às 22:40
Fico encantada cada vez que aqui venho!
Um beijo amiga Cris


De Cris a 29 de Outubro de 2008 às 19:57
Vem então, que este espaço é teu, também.

Beijo com amizade, Cris


De Raquel Vasconcelos a 28 de Outubro de 2008 às 08:26
Sobre:

[...]
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro
nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
era no tempo...
[...]

"Zango-me", não eram estas as verdades que desejava ouvir, e no entanto pareceram verdades quando li o poema inteiro, em tempos...
Depois sereno... não posso fazer nada...

...
Minha querida Cris, que conta estórias e escreve delicadamente...
Um beijo

PS: a tempestade acalmará e os raios luminosos de um sol medroso desejarão surgir... porque é assim em todos os tempos e lugares...


De Cris a 30 de Outubro de 2008 às 19:53
É um dos Poetas que me fascina, Raquel. Por tudo, foi com ele que quis "conversar". Só ele me "entenderia".
Que venha o sol, sim, que venha, mesmo que medroso. Com jeito, chegaremos a um bom entendimento, e, mesmo que estejamos já na estação do frio, da chuva, ele vai brilhar. Um dia de cada vez, com calma.

Beijo Doce, Linda.


De Fatyly a 27 de Outubro de 2008 às 19:38
Maravilha das maravilhas e bem ao teu estilo. Que momentão de leitura:)

Beijocas doces


De Cris a 30 de Outubro de 2008 às 19:55
Que momentão de conversa, Mãezona :-), que tive com o meu Amigo Eugénio.
Fascinío completo por todos os poemas dele, sem a mínima dúvida.

Mil e um beijos, com todo o carinho, Querida.


De Claras Manhãs a 25 de Outubro de 2008 às 00:59
Que bem aproveitado foi Eugénio de Andrade
Mandaste todos os recados, todos a todos os que precisavam de te ouvir

beijinho, Meu doce


De Cris a 30 de Outubro de 2008 às 19:56
Mais do que isso, Minucha, eu precisava de me "encontrar"
Devagar, chego lá! Devagar...

Beijo


De Nuno de Sousa a 25 de Outubro de 2008 às 00:15
Maravilha este teu post, palavras bem escolhidas num texto fabuloso.
Bjs amiga Cris e um bom fds por esses lados,
Nuno


De Cris a 30 de Outubro de 2008 às 19:58
Maravilha são os poemas de Eugénio de Andrade, Nuno! Eu, apenas tentei passar para o papel, a conversa apetecida, que precisava.

Beijo e obrigada, Amigo.


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