Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

 

 

Imagem de ©Jennifer Kennard - CORBIS

 

 

 

Ia abrindo, uma a uma, as gavetas. Estava só, agarrada à certeza que não partilhava com ninguém, de que ele voltaria. Ainda que aquela frase a arranhasse tanto, por dentro, perdia-se, esquecia-se de tudo o mais e ficava a olhar todos aqueles objectos.

Houvera-lhe dito, anos atrás, que a casa era tão grande, desde que ele fora.

Não tardou a resposta: “Que a amaria, que só o corpo partira, mas, que ele, ele continuava, permanecia.” Ela acreditava, ela sorvia cada uma das palavras, adornando o seu sonho.

 

Abriu a vitrina, a caixinha onde guardava as coisas belas, que não amareleciam nunca. Pegou na caneta que ele lhe havia dado.

Pertencera a um Avô, dele, que ela fizera dela, também, pela cumplicidade da história bonita.

Possível morrer por Amor? Ele dissera-lhe que sim, que depois da sua Amada partir o Avô definhou. Deixou de sonhar para pensar na companheira que tanta falta lhe fazia. Durou pouco tempo. Meses depois, foi fazer-lhe companhia.

Como ela gostava de histórias bonitas! Conseguia vê-los juntos, sorrindo.

Outra gaveta, mil e um bilhetes, cada um deles embrulhado na luz tépida das palavras que não se cansavam de dizer: “- Eram felizes, tinham-se, nada ou ninguém os separaria jamais porque eram um do outro, porque o pacto que haviam feito não seria quebrado, nunca!

Foi ao quarto, olhou-o. Afagou-lhe a face, encostou-o ao seu peito, fechou os olhos.

Sobre a cómoda, os aromas de tanto gesto partilhado, quando se descobriam, se perdiam pelas vielas do corpo, iluminados pela luz do luar dos olhares que nadavam no mar de todo o amor que faziam.

Ternamente, pôs uma gotinha em cada lóbulo da orelha. Fresco, doce, bom!

“Sê minha que já sou para sempre teu!”
 

Estremeceu quando ouviu que a chave rodava na fechadura da porta … coração a bater com tanta força, tanta!...

Uns braços que a envolveram…” Cheiras a nós! Que fazias?”

Deixou que ele lhe pegasse ternamente na lágrima que teimara em querer ficar ali, no quarto, a partilhar a espera. Levou-a ao rosto dele, secou-a na face:

“-Demorei muito?”

Que não, que não demorara. Só o tempo de ela tecer no leito que logo, logo, os acolheria, a certeza que lhe fizera companhia, enquanto ele não chegava:

“-Iria haver sempre tudo entre eles, tudo!”
 

Fechou a gaveta. Lá dentro, uma história com final feliz que ela abriria, um dia, enquanto o esperasse porque gostava tanto de histórias bonitas, tal como aquela ele lhe contara, lhe dera, quando fosse chegada a hora de ir fazer-lhe companhia…

Era possível, sim, morrer de amor, e, eles, um pelo outro, morreriam.

 

 



publicado por Cris às 17:21 | link do post | comentar | favorito

10 comentários:
De Menina Marota a 8 de Novembro de 2008 às 16:25
"...semanalmente, serão divulgados no item “Blogues em Destaque” (à direita da página), aqueles que pelo seu conteúdo ou carisma, chamaram a atenção da autora desta página."

É esta a mensagem que refere os motivos porque estão, semanalmente, 3 blogues em destaque...

Esta semana, a minha escolha recaíu no Lugarejo de Palavras pela partilha das palavras que muito aprecio...

Poderás "levantar" o selo que a Isabel Filipe tão generosamente desenhou para este efeito.

Um abraço e continuação de bom sábado ;)


De Cris a 8 de Novembro de 2008 às 16:40
Fiquei sem saber que dizer, Menina!
É tão gaiato, ainda, este espaço!
Emocionei-me.
Obrigada por gostares de vir passear até aqui.
Beijo em ti, no teu gesto e irei buscar o selo, sim!




De Fatyly a 8 de Novembro de 2008 às 09:21
Nem tenho palavras para comentar este magnífico momento do verbo AMAR.

Lindissimo...e fiquei com uma lágrima no canto do olho.

Obrigado meu doce, pelo mel das tuas palavras.

Beijos e um Bom Sábado:)


De Cris a 8 de Novembro de 2008 às 16:03
Apesar de tudo, ainda acredito nas histórias com final feliz, ainda acredito no Amor Verdadeiro, desinteressado de tudo. Haja diálogo entre ambas as partes, haja a maior honestidade, haja partilha de tudo, mas tudo, em todo e qualquer momento, Mãezona, e, a estória de encantar torna-se na melhor das realidades.
Para "eles" foi, é e será e há, por aí fora, tanta história de vida tão bonita, tão bonita!
Tu sabes que sim, Querida, tu sabes. Convives com uma belíssima e, por tudo, adoro que a partilhes comigo!

Mil beijos para ti e para a tua prole e um beijito super lambuzado para a tua neta, hoje, dia tão feliz para ela, para todos vós.

Com todo o carinho da tua fiota



De Carla a 7 de Novembro de 2008 às 12:03
como sempre...encantei-me. E sim é possível morrer de amor, assim como é possível fugir do amor...mas isso é uma outra história.
Obrigada por me deixares entrar nas tuas palavras e senti-las como se minhas fossem
beijos e bom fim de semana


De Cris a 7 de Novembro de 2008 às 15:34
Não agradeças, Carla, pois, que, sempre que me/nos dás o grato prazer de te ler, já o fazes, da melhor forma possível.
São tuas, sim, as palavras. Acredito que deixam de ser minhas, a partir do momento que as ponho aqui.
Sentir que gostaste, que gostas de vir passear por aqui, é também, em si, o melhor dos agradecimentos.
Beijos, Amiga.


De LGB a 6 de Novembro de 2008 às 22:32
Que dizer? Mais um belíssimo texto...!

Beijinho


De Cris a 7 de Novembro de 2008 às 15:37
Não precisas dizer. Basta a presença.
Obrigada e aproveito para te desejar um belo fim de semana, com tantos daqueles "Teus Outros Olhares" que apetece trazer, guardar.
Beijo, LGB.


De Claras Manhãs a 6 de Novembro de 2008 às 14:47
Minha Querida

Que história bonita!
às vezes vale a pena esperar, às vezes chega o tempo de ele chegar, ás vezes.....às vezes, Cris
E ás vezes é tempo de sabermos quando já não vale a pena esperar e recomeçarmos a acreditar que há mais histórias bonitas.....
um pouco mais além

Um beijo cheio de ternura, Meu Doce


De Cris a 6 de Novembro de 2008 às 16:22
É isso, Amiga. Deve haver, sim, uma história bonita.
Acredito que está a acontecer neste momento.
Para outros, tal como dizes, ela acontecerá..."mais além...um pouco mais além!"
Beijo com carinho


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