Quinta-feira, 12 de Março de 2009

 

 

 

 

Ainda viviam com os pais. Já tinham um filho, mas a casa da Rua de Santa Margarida era grande. Que nem passasse pelo pensamento do pai, que eles sairiam dali.

Ele parecia sisudo, mas não era. Sabia rir, no tempo em que ainda gostava de viver, em que apostava tudo, porque tinha a certeza que ganhava.

Fora ela que o ensinara e ele queria mostrar-lhe o quanto isso o tinha feito feliz.

Ela? Amara-o logo. Aquele porte distinto, aquela expressão de olhar.

Ela? Filha de família humilde, sem nome, mas muito honrada.

Ele? Filho de gente rica, que havia feito fortuna no Brasil, mas que regressara a Braga, cidade onde haviam nascido os bisavós.

 

Ele? Não olhou para trás, não ouviu o pai, irado, dizendo que se casasse, não iria ao casamento.

Ela? Que não fazia mal. Que o sogro haveria de os aceitar, quem sabe, um dia…

Amavam-se e era o quanto bastava para serem felizes para sempre.

Casaram de manhã, cedo.
Não vieram, os pais dele.

Melhor, dizia ela! Seria um almoço, cá fora, ao som das gargalhadas do pai, dela, da mãe, dos irmãos, todos alfaiates de profissão, e, por devoção.

Os pais dela? Adoraram o genro, tornaram-no filho.
 

Ela? Aprendera a arte da agulha com o pai, com a mãe. Passou-lhes a perna. Desenhava modelos. Experimentava-os nela.

Linda! Todos a olhavam, quando passava.

Os sogros gostaram de os ver singrar, sem nada pedir. E foram eles que pediram que regressassem à casa da Rua de Santa Margarida que, parecia maior, agora.

 

Ele? Queria dar-lhe o mais belo presente. Há muito que o desejava! Não via mais nada, senão a alegria dela, o sorriso que ela lhe ensinou.

Ela? Dizia que já o tinha, que era feliz. Que estavam bem.

Ele gostava de ir ver os campos, lá para os lados das Gavieiras, depois de sair do Banco, quando já não tinha mais escritas para fazer, e, enquanto ela ultimava os últimos pespontos e chuleios.

Encantou-se com uns terrenos!
Não aguentava guardar para ele aquele segredo.

Ela? Conhecia-o melhor do que à agulha com que cosia os vestidos bonitos.

Ele? Esperou que a última cliente saísse, com um vestido concebido provavelmente para um pedido de casamento, e, desceram a rua.

Ela? Viu as árvores, viu aquele campo, viu tanto terreno para o filho brincar. Como é que iriam dizer que era ali que queriam construir o sonho deles?

Ele? Que vinha pensando nisso há tempo…Que falaria com o pai.

Ia ser o Natal, viria a família toda, seria mais simples convencê-lo.

Ela? Tinha clientes de Lisboa, muitas, cada vez mais. Queria ter uma escola. Sonho que alimentava desde garota.

Ele? Sorriu.
 
A casa de Santa Margarida estava cheia. O petiz corria de um lado para o outro.

Que ficasse quieto, que parecia ter bichos-carpinteiros! “As crianças eram lindas, quando dormiam…”

Ele? Esperava o momento para dar a noticia.

Ela? Sentou-se a seu lado, calma, muito segura. Puxou o garoto para bem perto de si, sentou-o no colo.

Ele? Que tinha andado a ver uns terrenos…
Casa cheia.
O pai? Pousou o talher.

Caiu o silêncio naquela mesa, a abarrotar de olhares expectantes.

Ele? Apertou mais a mão dela.

O petiz? Olhava os três, do alto dos seus dois anitos, e, nem se mexia, com a perna bem encostada à da mãe.

Ele? Nunca tinha reparado como o pai se tornava enorme, quando se irritava.

Ela? Pouco lhe importava a altura do sogro! Era só cortar mais pano!

Era Natal, ia ter a escola, iam realizar um sonho, e, poderia rir, tanto, como desde há muito não fazia, à vontade, como ela gostava. 

A sogra, elegantíssima, fez sinal à criada que, sapientemente, saiu da sala.

Já iria ter com ela, para trazerem as sobremesas.

O pai levantou-se, e, quis saber, onde tinha ido o filho ver os terrenos.

Nas Gavieiras.

Onde? Mas ele estaria louco? Mas ali não havia nada, não era cidade!

Aquilo não passava de uma quinta, ou melhor, de um campo, onde só iriam passar carros de bois. Nas Gavieiras?

O miúdo tremia. Ela, envolvia-o num abraço, protegia-o, sussurrando-lhe dos presentes que o Menino Jesus lhe iria por, no sapatinho, pela manhã.

Que se calasse! Era conversa de homens.

Onde já se vira, uma criança ali, àquela hora? E ela? A meter-se, sempre a falar! Muito falava! Bem achava que os dois nunca deviam ter casado!

Ele continuava, sentindo uma mão na perna dele, apoiando-o, incitando-o a prosseguir…

Que as Gavieiras iria ser, dali a uns anos, das melhores zonas da cidade.

Da cidade? Aquilo? Aquilo era um lamaçal! Mas que nem pensassem em tal!

 

A cadeira caiu, a família deixou de respirar, e, a casa da Rua de Santa Margarida tornou-se pequena, pequena, para os dois.

Fora de questão! Havia casas lindas, noutros lugares, até mesmo ali, na rua, que ideia a dele, de ir construir num pântano, num terreno lamacento.

Que ficasse muito claro! Filho dele, jamais, mas, jamais, lhe desobedeceria!

Ele? Levantou-se também, protegido por um olhar doce, mas firme, por tão decidido a realizar um sonho de garota, que era agora um sonho dos dois e de um petiz, mostrou um papel.

Ele, avançou e, completamente desorientado e, cego, por tão desautorizado, ele, o pilar daquela família, ele, que podia comprar a Rua de Santa Margarida, podia comprar todas as avenidas, tornou-se pobre, ao levantar a mão ao filho. 

Poderia ter acabado o Natal, ali mesmo, mas não!

Transformou-se numa história de amor, uma das muitas que a minha mãe me contou sobre a casa onde o meu pai cresceu.

 

“ - Entendes agora, filha, porque te digo tanta vez que olhar aquele mosaico é ver um sonho sorrir?”

 

 

 



publicado por Cris às 22:32 | link do post | comentar | favorito

22 comentários:
De Paula a 5 de Abril de 2009 às 01:42
Linda e tao cheia do que na vida importa ...

beijos
Paula


De Adrian LaRoque a 15 de Março de 2009 às 15:48
Bela histór5a


De Cris a 15 de Março de 2009 às 18:45
as casas têm histórias para contar.
Esta tem tantas, Adrian.
Um abraço amigo e bom domingo para ti


De Oui C'est Moi a 14 de Março de 2009 às 22:49
:) Adorei a história Cris. Como desejava que hoje em dia ainda existissem homens e mulheres assim. São tão raros, se é que existem. Vir aqui é como comer um Baci . :) Gosto muito do teu espaço.

Bj


De Cris a 14 de Março de 2009 às 23:36

Há pessoas maravilhosas, muitas, um mundo de gente que nos adora, nos quer tão bem, Migota :)
Vem sempre que te dê vontade tal como eu vou ao teu espaço e me regalo por lá ;)

Beijo doce e um resto de fim de semana bom para tirares umas belas dumas fotos.





De Paulo Mello a 14 de Março de 2009 às 18:59
errata: fiquemos sem saber... (no plural)
(risos)


De Paulo Mello a 14 de Março de 2009 às 18:54
Cris, assim que entrei senti um delicado perfume, já tão meu conhecido. E pensei: ela esteve aqui!

Este sítio, minha amiga, é um dos lugares em que sinto uma alegria imensa quando a vejo passar. Diferentemente de outros que sei que ela visita e onde deixa um carinho, um beijo, uma atenção, e que não sei bem porque, me fazem sentir um certo ciúme. Talvez por ver a recíproca do carinho no blog dela. Sou assim, Cris, ciumento demais, e queria sua atenção só pra mim, mesmo sabendo que isto é impossível (risos).

Esta característica que tu tens, amiga, de contar as histórias de tua família é algo que me impressiona sobremaneira. Consegues enredar num caso real a beleza de uma poesia que faz com que nós, teus leitores, fique sem saber o que mais admirar, se a própria história em si ou a tua maneira única de contá-la. Tens o dom, Cris, dos grandes POETAS.

Desejo para ti e todos os teus um final de semana de muitas alegrias.

Receba um afetuoso abraço nos cumprimentos sinceros,
PMello


De Cris a 14 de Março de 2009 às 23:50
Eheheh, Paulo :)
Foi o perfume das violetas que a nossa Calunguinha deixou.
Escrevo porque gosto. Dom? Não tenho. Fosse eu Poeta!...

Um beijo amigo, Paulo, e, outro para o teu filhote.




De Carla a 14 de Março de 2009 às 18:35
tão lindo o sentir que as tuas palavras nos oferecem
...saudades de passar por aqui
beijos


De Cris a 14 de Março de 2009 às 23:53
Obrigada, Carla.
Que bom que gostes de passear aqui pelo lugarejo.
Beijito e bom fim de semana.


De Daniel Aladiah a 14 de Março de 2009 às 16:18
Querida Cris
Linda história, comum a muitas famílias no passado. E ainda acontece nos nossos dias...
Um beijo
Daniel


De Cris a 14 de Março de 2009 às 17:42
Obrigada, Daniel. Há inúmeras histórias assim, simples, mas, tão bonitas.
Um beijo amigo e que tenhas um fim de semana pleno de tudo de bom.



De Fatyly a 14 de Março de 2009 às 09:55
Sabes como adoro histórias e esta por saber da sua realidade fez-me sorrir e sentir uma vez mais a ternura, carinho e verdade com que cresceste e dou-te os meus parabéns por tão belo momento.
A vida é aqui na terra onde devemos ter os pés bem assentes e aproveitar todos os segundos, vivendo-os conforme pudermos.

Adeus meu amor e que Deus nunca te/vos abandone nessa comunhão familiar de um legado deixado por quem tanto vos amou...e esteja onde estiver amar-vos-à sempre e sempre.

Beijocas da tua mãezona:)


De Cris a 14 de Março de 2009 às 17:38
A vida é aqui, sim, Mãezona. Mantenho os pés assentes ;)
Como me dizes: Um dia de cada vez e saibamos nós vivê-lo com calma, Migota.
Li algures sobre palavras de que se não "gosta".
Uma de que não gosto, é de "Adeus".
Digo-te um Até já envolto num abraço.
Bom fim de semana e beijos para a tua Prole tão bonita!


De Fatyly a 14 de Março de 2009 às 20:05
Respeito o não gostares da palavra "adeus"...xiiiiii substituo por inté pode ser meu doce?

Beijocas migota


De Cris a 14 de Março de 2009 às 23:56
Pode. Mania minha, eu sei, mas, não gosto mesmo da palavra.
Bom domingo, Mãezona Mais Linda


De Mariz a 13 de Março de 2009 às 23:59
Salvé petiza

Ela? olha querida, faz o que entenderes, mas aquilo do vinho de Colares, não me soou lá muito bem...
Do outro lado? aquilo não é nada! fui eu que disse que pertencia á freguesia de Colares em Sintra.
Ela? Já não sei nada...estas coisas da net são muito confusas. Mas tem cuidado.aje com sensatez.
Do outro lado? risos
Ela? não disse mais nada

Depois desta pequena graça em que os risos ficaram no ar...deixo o meu agora o meu sentir mais grave.

É a história de família mais bem contada que alguma vez li. Mas é que é mesmo!
Abençoadas filhas e filho que nasceram de semelhantes pessoas/almas, que vêm de certo cumprindo bem e com o rigor que se lê, o projecto que trazem no seu DNA.

Ela? Podes crer miúda...e tu que me entendes
Do outro lado? Sinto. E está tudo dito. E é nesse sentir que o silêncio prospera e se afina.
Ela? Mas não te esqueças que vives aqui na terra...
Do outro lado? Mas não sou daqui...por isso venho preparando o meu futuro.

Desejo que continues nesse sol que vai raiando em toas as Primaveras que fazes florir.
Abraço-te no meio dum campo de papoilas e lá mais ao longe, de girassóis.

Sempre...
Mariz


De Cris a 14 de Março de 2009 às 17:25
Obrigada, Mariz!
Acredita que aquela casa tem tanta história bonita, tanta!
Impossível ficarmos alheadas dela já que está ali, ao lado da nossa, também com mil e uma histórias deliciosas.

Agora vamos saborear o Sol, abrir as janelas aqui do "Lugarejo" das "Marias do Minho" para que se espalhe por ele o aroma da Primavera que, não tarda, vai chegar.

Um beijo amigo e um bom fim de semana.


De Beatriz a 13 de Março de 2009 às 14:44
Ao término da leitura eu também sorri, Cris, com esta linda história de amor!

E de repente senti um reboliço no coração, e quando fui ver, acredite, um sonho sorria dentro de mim...

Olha só o que uma boa leitura nos faz!

Fica uma violeta lilás, um beijo, e o carinho da tua
Calunguinha


De Cris a 13 de Março de 2009 às 19:42
Acredita, Calunguinha, que aquela casa é mesmo muito bonita e que fez a delícia da nossa infância.
Um beijo e adoro violetas!
Obrigada, e, tem um belo fim de semana, para poderes descansar e escrever :)




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