Sábado, 28 de Março de 2009

 

 

Não vou ali àquele espaço pois que não te concebo, na lembrança, ali. Imagino tão só um amontoado de mausoléus que nada dizem, nada.

Não eram os bens materiais importantes para ti, mas, a emoção de permanecermos todos juntos, para além de tudo…para além dum corpo.

Não importava onde ficarias, para os demais. Importavas-te connosco, tanto, até mesmo no dia em que chegou a hora de te separares do corpo, e ires, tu, apenas tu, sem que antes dividisses o teu sorriso em quatro partes iguais…

Guardo nesta caixa a que me deste, esse teu sorriso, e, quando a abro, quero lá saber que me julguem pelo facto de não ir àquele espaço…

 

 

Fotografia de Fotografia de  © Vladan Doslic

 

 

 

Era tão precavida a tia Mari que deixou comprado o baú de Olinalá* onde deveriam colocar as suas cinzas, e ali estava, a meio da sala onde todos os que a amaram se tinham reunido para pensar nela.

A tia Mari teve uma grande amiga. Uma amiga com quem falava das suas tristezas e das suas alegrias, com quem tinha em comum vários segredos e um monte de lembranças, uma amiga que ficou sentada junto do cofrezinho sem falar com ninguém durante todo o dia e toda a noite que durou o velório. Ao amanhecer, levantou-se devagar e dirigiu-se para ele. Quando estava perto, tirou da sua carteira um frasco e uma colherzinha, levantou a tampa de madeira perfumada, e, com a colher, tirou dois bocadinhos de cinzas e pô-los no frasquinho. Fez tudo isto com tanto sigilo que quem estava na sala imaginou que se tinha aproximado para rezar.

Só foi descoberta por um par de olhos, à sua dona rendeu contas, depois de os ver arregalar de surpresa:

- Não te assustes – disse-lhe. – Ela deu-me licença. Sabia que me faria bem ter um pouco do seu aroma na caixa onde tenho as cinzas dos outros. Sempre que posso, levo um pouco dos seres a quem continuarei a amar depois de morrerem, e, misturo-os com os anteriores. Ela ofereceu-me a caixa de embutidos onde os guardo a todos.

Quando eu morrer, colocar-me-ão aí dentro e confundir-me-ei com eles.

Depois, que nos enterrem ou nos espalhem no ar, mas juntos.


 

* Olinalá: de Olinala, município e povoação do estado de Guerrero (México)

 

 

Nota de Rodapé

 

História retirada do livro “Mulheres de Olhos Grandes” de Angeles Mastretta.

Edições ASA – 1º Edição: Julho de 2003

Angelles Mastretta nasceu em Puebla, em 1949 e é um dos nomes mais importantes da actual ficção mexicana.

 

 



publicado por Cris às 16:56 | link do post | comentar | favorito

16 comentários:
De Daniel Aladiah a 31 de Março de 2009 às 11:04
Querida Cris
Tanto que desconhecemos... e são tantas as histórias de amor, que nos fazem humanos e que justificam estarmos vivos.
Um beijo
Daniel


De Cris a 31 de Março de 2009 às 21:48
É mesmo isso, Daniel! Tanta história de amor que nos faz ficar a sorrir, nos faz sentir humanos, e, tanta vez, tão felizes por fazermos/sermos parte integrante delas.
Outro beijo para ti, amigo.


De mariz a 31 de Março de 2009 às 02:26
Vim despedir-me - tal como referi atrás - porque e tal como o teu pai, vou entrar nas cinzas de mim e regressar só lá para o fim do dia 12.
Queria porém deixar-te 3 coisas que espero as guardes sem deitares a chave fora.
Gosto de te ler. Gosto de te ouvir, como uma das muitas partes e mim, espalhadas outras pessoas que me ajudam na Caminhada.Gosto de gostar de ti...embora não pareça. MAs também aqui é o meu exercício de sobrevivência no Caminho - que nada em a ver com a vida de todos os dias e que as pessoas levam e ficam muito abaladas por causa da crise.
A minha preocupação maior é a MAIOR! - tão só...porque é diferente.
Muito embora não me entendas bem - e eu sei que sim - também não é menos verdade que a tua alma sente e é nesse sentir que nos vemos, observamos, e teimamos nesta tão bonita amizade....nem que seja feita de alguns silêncios. E eles que estão LÀ, sabem bem disso.
Entrou-me agora algo para uma vista...deve ser da brisa que faz lá fora....

Agora vou...
Nao comento este post, como gostarias se calhar, porque isto foi bem mais importante de se escrever.
Fica com Deus e no Seu doce olhar pergunta-lhe como é possível aquele tão grande AMOR que nos tem...
e que eu tanto gostaria de alcançar!

Deixo-te com um beijo na tua testa, enquanto te seguro nas mãos e... sigo a minha caminhada.
Sempre...
MAriz


Nota - deixei um laivo no comentário anterior reativo a este post, se bem entendeste.


De mariz a 31 de Março de 2009 às 04:22
..."eles que estão LÀ"... - penso que saibas a quem me refiro.
Porque agora são eles mesmo feitos de silêncios...mas não menos de sinais que nos deixam...


De Cris a 31 de Março de 2009 às 21:44
Mariz,

Respeito-te, gosto-te, com todos os defeitos e qualidades e como tal vou dizer-te que te li/ouvi com todo o cuidado, amizade, e carinho e por isso mesmo vou ser clara, de acordo?
O meu pai morreu, tal como o teu, tal como o de muitos amigos teus, meus, nossos.
Tu não, Maria! TU NÂO MORRESTE!
Por isso, não vieste despedir-te, vieste dizer um até já.
Quando voltares, virás com toda a certeza, mais "rica", "renovada", com um ramo de coisas boas e bonitas para me/nos dares/partilhares.

Espero-te para tantos outros passeios, bons, serenos, à beira mar, pelo campo, ou, para ficarmos, apenas sentadas, escutando o tanto que o silêncio tem para contar.

Um beijo amigo,

Cris




De Claras Manhãs a 31 de Março de 2009 às 01:34
Que lindo Cris!
Vou ficar como nome da escritora.
obrigado

beijinho


De Cris a 31 de Março de 2009 às 21:50
Isso, Querida, vais gostar de ler. Se há livro que me tocou, este, é um deles.

Beijinho para ti e já tinha saudades de te ver aqui no lugarejo ;)


De Paulo Mello a 30 de Março de 2009 às 02:41
Ela passou por aqui... sinto o seu perfume...

Cris, achei muito bonito o que tu escreveste para a tua calunguinha. Ela ainda não leu, tenho certeza, pois passou o dia com as atividades sociais que tomam todo o seu tempo, e só agora à noite tivemos a oportunidade de conversar via fone. Tenho certeza de que ela vai "adorar" (termo muito usado por ela) quando ler a tua resposta.

Também gosto muito de histórias. Uma das coisas que muito admiro na família dela são as reuniões que fazem constantemente, juntando toda a família só para colocarem a conversa em dia, para cantarem, dançarem, ver se tem alguém precisando de alguma coisa, enfim para se divertirem e se ajudarem. Lá pela madrugada, crianças já na cama, adultos em volta da fogueira, começam a se contar as histórias dos que já se foram ou daqueles que ainda estão por aqui e que sempre tem um "causo" qualquer para contar. Eu me amarro nestas ocasiões e fico de boca aberta e olhar atento sem perder nenhuma palavra. Não vejo a hora de fazer parte "de verdade" dessa família tão unida, e de um dia, em volta da fogueira, poder contar os "causos" de nós dois, de como foi difícil conquistar aquela "menina maluquinha", como a chamo sempre que quero lhe dar uns puxões de orelha (risos). Um dia, Cris, um dia... que espero não demore, mas que vou (im) pacientemente aguardar, tentando não estragar tudo outra vez... um dia de cada vez... mas eu chego lá.

Quanto à história da tua postagem, também fiquei emocionado, pois sou totalmente a favor da "cremação" e de todo o ritual por trás deste ato. Fico emocionado até hoje quando me lembro que "ela" fez isto com o próprio coração.

Não conhecia a autora do livro, mas senti vontade de lê-lo. Vou procurar aqui na minha cidade.

Desejo-te uma excelente semana junto aos teus, Cris, de muita saúde e paz.

Fica meu abraço afetuoso junto dos cumprimentos sinceros,
PMello


De Cris a 31 de Março de 2009 às 22:03
Paulo,
Como eu gosto de ouvir uma boa história!
Quando nos juntamos em família é uma alegria ouvir o que cada um vai contando :) não ao redor da fogueira, mas, sentados na sala, mesa cheia do que todos trouxeram e ficamos horas sem fim, a rir. E quando um conta uma história já o outro interrompe porque se lembrou de algo que escapou ao que contava e é mais um fartote de rir!

Logo vais ter esse prazer de contar os "vossos causos" (adorei a palavra!) e deixar os outros de boca aberta ;) Esses outros que depois contarão os seus "causos" porque a vida é assim mesmo, já pensaste? Um caminhar encordoado de histórias...

Beijitos para todos e que a semana continue assim, serena, com sol e muita história bonita!

Deste livro? Que dizer? Só lendo!... Sou suspeita...rsss...porque simplesmente adorei!
Procura-o sim e vais adorar estas histórias de Mulheres de Olhos Grandes.




De Adrian LaRoque a 29 de Março de 2009 às 19:53
Estou a começar a gostar também da tua forma de escolher!


De Cris a 29 de Março de 2009 às 20:37
Bom "ouvir" isso, Adrian :)
Tal como tu disseste: When we "do what we like” there is nothing that fulfills us more, if we can’t do it professionally, We should do it as a hobby, happiness will follow.

Great thought!

Um abraço








De Beatriz a 29 de Março de 2009 às 14:47
Cris, por favor, apague o segundo comentário antes do nosso amigo Paulo aparecer por aqui e tentar consertar o que ele chama de 'descuido', rs.

Fica mais um beijo no teu coração!


De Beatriz a 29 de Março de 2009 às 14:43
Encanta-me as histórias de vida de outras pessoas, quer sejam minhas conhecidas ou não. Fico sempre com aquela sensação gostosa de ter recebido uma confidência, de ter partilhado um momento único na vida de um semelhante. A que acabo de ler fascinou-me pelo seu conteúdo.

Grata pelo carinho das palavras e pelo cestinho de flores do campo, aprecio-as muito pela delicadeza e quase fragilidade com que se espalham pela natureza.

Acredito que só o tempo me fará sentir completa novamente, e quando o olhar se tornar menos enevoado poderei descobrir que no céu surgiram novas estrelas.

Que as horas do teu domingo cheguem trazendo o perfume das flores que mais aprecias, o sorriso mais lindo dos anjos de Deus, e um beijo meu envolto em muito carinho.

Da tua (sempre)
Calunguinha


De Cris a 29 de Março de 2009 às 16:28
Não ousei dizer nada, lá, no teu espaço, achei que não devia, Qualquer palavra era "invadir" esse ramo de recordações, tuas, tais como tantas que trago comigo... que cada um de nós tem, que guarda, que dá a mostrar a outros.
Sei, isso digo-te, porque tantos que te lêem, muitos com quem convives, uns virtuais, outros reais, terão também tantos "ramos de recordações". Umas, vão-se esbatendo...outras, permanecem.
Saber, melhor dizendo, conseguir "doseá-las" para que não [nos] sufoquem e impeçam de "descobrir o céu" (de seguir em frente) é um pouco mais difícil, mas, não é, de maneira alguma, impossível.
"um dia de cada vez, um passo após outro" chegamos lá... e vais chegar.
Atenta à forma como "terminaste" o teu post: dentro de ti (e sem querer ser lamechas) houve uma porta que se encostou", mas, Ele?, tão atento, tão Amigo, cuidou de abrir uma janela, essa assim, aberta plenamente, para permitir que o sol entrasse. Não te deu os peixes, Migota, deu-te a cana e com aquele jeito dele, vai ajudar a que aprendas de novo a pescar :)
Imagino-te (pelo que venho lendo, há tanto, de ti, que és uma boa aprendiz, e, que, logo, logo, a mesa vai ser farta, para receberes, em festa, o amigo que tão bem te quer, e vão fazer uma história, vão sim, com toda a certeza.

Força, Calunguinha, e, ouve o teu coração e quando tiveres momentos em que te sentas ao "piano", podes crer que ninguém ousará interromper a melodia que "jorrará dos teus dedos.

Beijo e já apaguei aquele comentário. Tem a ver com a plataforma do "Sapo" e não com qualquer "descuido" teu (rs)

Obrigada por tudo. Esta época que se avizinha, de Páscoa, era a que mais significado tinha para o meu Pai.
Não preciso de ir lá, àquele "espaço", para o sentir" já que, ele cuidou, antes de encetar a sua viagem, de nos sossegar, dando-nos o seu sorriso.

Porque te digo isto?
Porque te gosto!

O domingo está a ser calmo. Que ele o seja também para ti, para os teus.

Tua, com carinho,
Cris




De Nuno de Sousa a 29 de Março de 2009 às 21:52
Bonito texto dessa senhora de nome Angeles Mastretta, não conheço mas gostei deste texto escrito por ela, mas uma coisa também posso dizer não ficas nada atrás dela qdo escreves, e eu adoro o que fazes e o que escreves e sabes isso amiga :-)...
A foto é deliciosa.
Bjs grandes em ti e resto de um bom Domingo ai por casa e uma boa semana para vós.
Nuno de Sousa


De Cris a 29 de Março de 2009 às 22:39
Este livro, Nuno, é lindíssimo!
Adoro ler, tenho imensos livros que me dizem imenso, mas, deste? Este é delicioso de ler.
Quem me dera escrever como esta senhora.
Ainda bem que gostaste.
Se o encontrares, compra-o e oferece-o à tua Paixão. Ela vai adorar e tu também, só pode.

Um resto de domingo sereno para ti e todos.
Obrigada pelo incentivo que tens dado à minha filhota.
Beijinhos nossos para vós


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