Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

 

 
 
Estarás em mim!

Eu nasço em cada dia que as nossas vontades se encontram.

Existo agora, absoluto. É para ti que corro pois que é em ti que me confio.

Respiro cada lugar do teu corpo, descanso nele o meu.

Consente-me, e, habitar-te-ei.

Os nossos olhares serão esposos e este fim de tarde será eterno.

 

 

 

 

 

Ela ia humedecendo serenamente o céu-da-boca, com aquele licor de palavras, sentindo como ele se lhe exultava ameno pela planície rosada da língua, polvilhando-a de juventudes.

Não era um beijo, era a nascente dum anseio que lhe serpenteava a emoção, sensibilizando-lhe todos os sentidos, inundando-a de movimentos que até então apenas lhe passeavam os lábios em sonhos…

Eram os dois, um só, naquele espaço!

Conceberam todos os filhos enquanto se embalaram em cada virar de maré, enquanto folhearam felicidades singulares, num areal imenso, emoldurado por um mar que reflectia as imagens que esboçavam, transformando-as em estrelas.

 

 

 

 

Não estranhavam que ela pela praia permanecesse, horas a fio, tão quieta.

Os mais velhos lembravam a história, de como era tão traiçoeiro o mar, quando lhe roubara a maior felicidade.

Se havia mulher bonita, era ela, a mais bonita das varinas!

- Ah, Tóino! Tu é que és um homem de sorte! Nós com aquele mulheraço não passávamos tantas horas no mar!

Ele ria, mas não adiantava conversa. Nem parecia igual a eles, tal o amor que tinham um pelo outro! Nunca tiveram filhos, mas, nunca o ouviram queixar-se por isso!

- Não temos filhos porque Deus assim o quis! Mas estamos juntos! E essa felicidade ninguém nos tira!

 

 

 

 

Sempre que partiam para a faina, ela ficava assim, tal como agora, a olhar o mar, como se ouvisse o seu companheiro, como se lhe dissesse que o amava, e que o esperaria e o abraçaria sempre, sempre, como se fosse a primeira vez!

Quando voltavam da faina, ela era a primeira a correr, a abraçar o seu amor, a arrumar as redes, espalhando sorrisos orgulhosos por ser aquele o maior tesouro que Deus lhe dera!

Quando, naquele fim de tarde, a embarcação dele não chegou, ninguém lhe soube explicar a razão porque ele decidira ficar mais tempo.

Que o mar estava a virar, que iam voltar para terra.

Ia ser feia a borrasca! O tempo não estava para brincadeiras, não alvitrava nada de bom!

Com aquele vento, com as ondas tão altas, ninguém se aventurava a ir procurá-lo.

Que ele era experiente, que conhecia todos os sítios e que voltaria, no dia seguinte, quando a tempestade amainasse.

Não voltou…
Nem no dia seguinte nem nos dias que se lhe seguiram.

E nunca mais a ouviram cantar, a espalhar sorrisos pela areia.

Foi como se tivesse sido levada também pelo mesmo mar para se unir ao seu tesouro.

E atrás dos dias, vieram os anos que também foram passando, passando, lançando ao mar redes cheias de espera!

- Coitada! O mau tempo levou-lhe o homem. Nunca mais falou com ninguém! Os ganapos têm medo dela! Mas ela nem dá por eles, a pobrezinha!

Cá para nós está louca! Fica horas esquecidas a olhar para o mar, a olhar, a olhar!...

Haviam de vê-la, quando era nova! Que pedaço de mulher!
Pobre Tóino, que Deus o tenha!...Muito ele gostava dela!
Ai que triste história, a daquela mulher!
Não ligava ao passar do tempo.

Cada onda que lhe vinha afagar os pés descalços trazia-lhe a voz de madrepérola, trazia-lhe os dias de ouro, o seu tesouro. Era ali que tinha aprendido a viver, desde que o oceano lhe levara o companheiro.

Era ali que gostava de ficar. Abria as janelas do fim de tarde e deixava que o néctar feiticeiro a alagasse de torrentes de recordações do dono dos seus sonhos, a cada volteio de maré!

Com elas vestia os lábios, com elas cobria o momento em que começou a fazer da sua vigília um sonho bonito! Aspirava dele o som dos passos, perdia-se no almejo de beber daquele licor e renascia no imenso areal, cada vez que o horizonte a olhava, tão cheio de azul, tão terno!

Era a voz daquele contemplar que a respirava, que continuava a descansar nela, que lhe percorria os lábios, delimitando o seu espaço com a mais bela história!

 

 

 

 

A noite sobrevoou-a…

Depois de cobrir todos os outros dias, sentou-se ao seu lado, e, passando-lhe o braço pela cintura, puxou-a para si.

Ficaram assim, em silêncio, ouvindo o som do mar.

- O teu tesouro encontrou um fim de tarde e ficou a ajeitá-lo, a prepará-lo para ti. Pediu-me que te levasse, que a faina foi longa, que já está na hora de descansar o corpo no teu e que hoje és tu que vais ter com ele.

Ela sorriu. Bem sabia que ele a esperava! Iam viver-se, beber pelo mesmo copo, saciar a fome com tantos beijos, embalar-se em tantos virar de marés!

- Vamos?
Levantaram-se ambas.
Ela ajeitou o cabelo, limpou uma última lágrima e…
- Estás tão formosa, varina! Vamos, que o teu tesouro já tem tudo pronto, e, está ansioso por te ver!
Ela ainda fez um gesto, como se algo faltasse dizer…
- Chega de esperas, minha querida! Não precisas dizer mais nada! A tua expressão diz tudo tão cheia de felicidade! Guarda todas as palavras para o vosso encontro, para quando os vossos olhares se desposarem no mais belo fim de tarde que o teu tesouro para ti preparou!

 

.....

 

 

 

- Bom dia!
- Bom dia!
- Muito gosta o Sr. da sua máquina fotográfica!

- Eu gosto é desta vossa aldeia! Este cheiro do mar, esta praia! Deve ser dos lugares onde o oceano é mais azul! E aquelas rochas? Já viu a quantidade de gaivotas que lá vai poisar?

O velho pescador sorriu.

Não ia contar-lhe a história. Julgá-lo-ia louco! E, também, quem é que ainda se lembrava do seu amigo Tóino que um dia o mar levou? E de como a pobre da mulher acabou por morrer de tanto desgosto? Nã’!...Deixá-lo ir…

- Elas lá sabem onde se sentem mais felizes!
- Curioso!...Até parece que estão a guardar algum segredo!

- Quem sabe? – Respondeu o velho, sentado no paredão. – Quem sabe, estão?

 

 

 

Abril de 2006

 

Todas as Imagens retiradas do fotocommunity

 

 

 



publicado por Cris às 00:49 | link do post | comentar | favorito

12 comentários:
De Claras Manhãs a 6 de Abril de 2009 às 23:29
Que lindo texto Cris
E as dores de perder o home no mar são tão profundas.


beijinho meu doce


De Cris a 7 de Abril de 2009 às 19:44
A dor de perder alguém que amamos é imensa! Dizem que o tempo cura. Talvez que a amanse, talvez... Eu não creio.

Beijo


De Paulo Mello a 6 de Abril de 2009 às 23:24
Cris, minha boa amiga, está cada vez mais problemático que tu venhas a ouvir falar dos "causos" nossos em volta da fogueira, pois "tua" calunguinha está cada dia mais difícil de se lidar. Bem sei que ela sente muito carinho por mim, mas não é amor, Cris, e fica difícil pra mim aceitar apenas um pouquinho a mais do que amizade, pois eu quero amor, desejo, paixão, isto tudo que sinto por ela há muito tempo e que ela sempre rechaçou. Sei que ela tenta gostar um pouco mais de mim, que ela tenta me ver como o homem de sua vida, mas falta paixão nos seus gestos, desejo nas suas atitudes, amor nas suas palavras. Sinto que ela gastou isto tudo no passado, talvez com o pai da filhinha dela, já falecido, mas ela não se abre comigo, é como se uma barreira a cercasse e ela não me deixa penetrar na tristeza que por vezes toma conta dela, assim, sem mais nem menos. Penso por vezes que ela sabe de algum problema mais sério relacionado a sua saúde e que não quer preocupar a nenhum de nós, pois muitas vezes a senhora, sua mãe, a pega pelos cantos chorando. Tenho pensado em me mudar para a cidade dela, para ver se as coisas melhoram, mas quando falo nisto ela logo me tira de cabeça, não quer que eu mude minha vida por ela. Tento ser paciente, mas sou explosivo mesmo e me dá nos nervos ver as postagens que ela faz e que eu bem sei, não são pra mim. Ela diz que são coisas que saem de sua cabeça, coisas que ela produz mesmo sem ter vivido, mas eu não caio nesta. São muito reais para serem produções literárias, como ela diz. Estive lá no final de semana que passou, mas acabamos nos desentendendo. Ela pediu um tempo e eu fiquei desesperado, Cris, pois mesmo do jeito que está, se não está bom, ficaria muito pior, imagina eu sem poder ouvir sua voz (coisa que fazemos toda noite por telefone), eu ia ficar desnorteado. Por fim, ela tem se descuidado da alimentação, dos horários de repouso, e nem parece que é uma médica, pois na mesma proporção que se ocupa da saúde dos outros, pouco valor dá à sua. A única coisa que a entusiasma são os idosos e as crianças que ela cuida no seu asilo/créche e os centros esportivos que ela criou para os jovens carentes. O resto, incluindo eu, somos deixados de lado. Vamos ver até quando aguento isto, Cris. Minha vontade é de sair do país, morar bem longe do Brasil, para tentar esquecer esta "tua" calunguinha que tanto trabalho me dá. Já imaginou se eu voltar a escrever num blog? Ia ser o cara mais chato do mundo, pois só sei falar nela, respirar, comer, dormir, trabalhar, pensando nela. Se o outro chamava-se E O RESTO É SILÊNCIO, o de agora seria E TUDO SÃO PALAVRAS, SENTIMENTOS E POESIA SÓ PRA ELA...

Ai Cris, até que desabafei um pouco (risos) alugando seus ouvidos desta forma, mas me fez bem.

Receba um abraço fraterno nos cumprimentos de sempre, com muito respeito,
PMello

Obs. este coments eu não vou revisar, pois já estou ficando um chato de galocha corrigindo tudo que escrevo (risos).


De Cris a 7 de Abril de 2009 às 20:03
Paulo, são precisos dois, amigo, dois a sentir o mesmo. Têm de ser "convergentes".
Se não é essa a "opção" da Calunguinha, Paulo, que posso eu dizer-te? Se nem ela sabe, meu amigo? Gosta-te mas está ainda tão vivo nela todo um passado replecto de coisas tão dela!
Bem sei que custa, não julgues que falo da boca para fora, mas, há que conseguir andar para a frente e tentar ver (custa de início) outras coisas também tão bonitas!
Ninguém pode forçar (perdoa a brutalidade da palavra usada) o outro a amar-nos como queríamos, ninguém!
Deixa-a sentar-se "ao piano"...e tenta não ser impaciente pois que a pressa é inimiga da perfeição, da calma, da serenidade.

Vem sempre que queiras, sempre.
E, se ficares em silêncio, se não te apetecer dizer nada, fica, se tal te fizer bem.
Força, Paulo, e, vais ser feliz, podes crer, ainda que agora te pareça que a felicidade anda longe do teu espaço.

Um beijo amigo a ti, ao teu filhote e à nossa Calunguinha,








De Adrian LaRoque a 5 de Abril de 2009 às 01:47
Excelente texto Cris, gostei imenso.


De Cris a 6 de Abril de 2009 às 22:32
Obrigada, Adrian.
Um abraço deste lado do oceano


De Paulo Mello a 2 de Abril de 2009 às 13:24
Ai Cris, chegar aqui e ler uma história tão triste corta o coração, eu que já vinha meio tristonho acabei de entristecer de vez (risos). Gosto muito de histórias sobre o mar, pescadores e suas desventuras amorosas. As imagens terceira e quarta estão excelentes, muito bem focadas.

Cris, minha menina resolveu agora se "enterrar" no trabalho, não tem mais tempo para mim, fico o dia inteiro no telefone e quando consigo uma conversa com ela já é noite e ela está cansada. Fico chateado não só pela saudade e falta dela que sinto, mas também porque me preocupo com os abusos que ela faz. O problema é que ela se irrita com minha preocupação, eu me irrito com a irresponsabilidade dela para ela mesma, e acabamos nos desentendendo. Ela agora deu para argumentar que ninguém morre antes do dia marcado, por isso não se preocupa em trabalhar em demasia. Dá vontade de dar umas boas palmadas nessa menina mimada ou então uns bons puxões de orelha (risos), mas não posso fazer porque estou longe dela e também porque sei que, se eu der, recebo o troco na hora, pois ela é uma "pimentinha" de primeira e não leva desaforo pra casa, como ela mesma diz (risos).

Mas chega de reclamações, pareço até um menino birrento, cheio de mania. Sei que preciso me comportar, dominar esta possessividade, mas não tem jeito, Cris, quando vejo já ultrapassei os limites do razoável. Eta geniozinho ruim este meu (risos).

Agora que estou mais calmo, posso ir embora... tá vendo como sou abusado? Tu ofereces o ombro e eu aceito na hora (risos).

Um abraço fraterno, minha boa amiga, e até a próxima visita.

PMello


De Cris a 2 de Abril de 2009 às 20:08
Vai com calma, Paulo, que a nossa Calunguinha tem de ter o seu espaço. Ela sabe o que faz e claro que não vai exagerar. E gosta-te, já está mais do que visto!
Já nos "conhecemos" há um tempo, Amigo, claro que adoro que venhas até aqui. Não há maneira de te convencer a criar um espaço teu ;) e tu escreves tão bem!
As fotos foram escolhidas já tarde da noite.
Quando não andamos no nosso melhor, olha, tentamos distrair-nos e foi o que fiz, depois de ter encontrado este conto que julgava perdido.

Que bom que saias daqui mais calmo,e,olha lá,
não "sufoques" a tua/nossa menina.
Ainda vou ouvir-vos falar dos vossos "causos" ao redor da fogueira ;)
Beijitos para ti e para o teu filhote.



De Nuno de Sousa a 2 de Abril de 2009 às 13:18
Lindo este teu texto cheio de emoção, beleza, uma história comovente e pronto nesse final até se soube que ele adorava tirar fotos :-), e que belas fotos esse pescador devia tirar...
Mto belo como sempre o que fazes, admiro-te e a tua mamã tem razão, gostamos da forma como escreves e gostamos de ti :-)
Bonitas fotos que escolheste.

Bjs grandes minha boa amiga e um até já
Nuno


De Cris a 2 de Abril de 2009 às 20:12
O meu ego encheu-se, Nuno ;)
Que bom que tenhas gostado. Deves conhecer este site. Estão lá fotógrafos de todos os cantos do mundo.

A minha mãezona exagera, podes crer que ela sabe que tenho muito mau feitio ...rsss... só que ela dá-me logo duas para trás quando eu abuso ;)

Beijitos para ti, para a tua Paixão e aparece sempre que possas.



De Fatyly a 2 de Abril de 2009 às 12:39
Li tantas vezes este teu texto e hoje quando o voltei a ler encontro sempre um brilhozinho perdido de madrepérola.
As fotos...tiveste tão bom gosto.

Que te dizer fiota? já te disse tudo e sabes tão bem...como gosto de ti e da tua escrita.

Foi bom vir aqui e deixo-te um xicoração muitaaaaaaaaa gandiiiiiii


De Cris a 2 de Abril de 2009 às 20:19
De Cris a 2 de Abril de 2009 às 20:01
Nem sabes o que eu procurei este conto. Julgava-o perdido. Ontem, às voltas duns ficheiros, encontrei-o e a outros :)
Fascina-me o mar, tenho um carinho muito especial por pescadores e enquanto o sono não chegava (coisas, sabes? que me trazem preocupada, mas que não "cabem aqui...) estive absorta de tudo.
As fotos são dum site belíssimo!
Deixei o link para quem quiser perder-se por lá.

Um beijinho imenso e devagar tudo há-de melhorar aqui por estes lados, Amiga.

Que o teu dia, ontem, tenha sido assim, cheiinho de riso, com a "nossa" barriguitas a festejar o aniversário e a alegria de ser mamã.


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